20.10.14

...

O dia começa lento em mim. Preguiçoso e desmotivado.
Não me apetece sair da cama. Para quê? "Vá, a vida vale a pena. Vamos"
Levanto-me e visto-me apressada. Preparo o pequeno almoço do costume, agradeço ter alimento antes de o sentir na boca. Saboreio a torrada com o doce de abóbora e inspiro-me com imagens e fotografias. "Que momentos maravilhosos estes. E o meu dia? Igual aos outros dias da semana..."
Saio apressada porque o relógio andou mais depressa do que eu. Guio o carro e penso "Para quê? Vais viver o dia a querer que acabe? Vais trabalhar a querer que acabe? Não é suposto. Tu mereces acordar de manhã com vontade de acordar. O que andas a fazer? "
Penso no móvel que vou repintar, penso na rena que vou costurar e na boneca que tenho encomendada. Não costurei nada no fim de semana. Mas o fim de semana teve vários momentos que não quis que acabassem. Valeu! Mas e agora?
Não acredito no projecto que criamos. Parece que remamos e remamos e nada. Sinto-me triste. Acalmo a mente e digo para mim própria "segue o fluxo. não penses tanto. calma"
Lembro-me dos dias em Évora que começavam da mesma forma e que podia ser Segunda ou Sábado que cada acordar valia a pena. Ver a querida P. na cama de jardim a cantar pela manhã. E eu? Porque não "consigo" levantar-me e cantar? O que ando aqui a fazer? 
Sinto-me triste e pesada. Estes dias não são para mim, bem sei. Que passos dar para tornar os meus dias o melhor de mim? O melhor para mim?

Respira, respira e respira. Está tudo bem e tudo certo. Não tenhas pressa da vida. Aprende a ser e não a fazer.
Eu sou.
EU SOU.

8.10.14

Para não esquecer - Bernardo 6 meses

Bernardo, tens agora 6 meses.

Os teus olhos azuis e as tuas pestanas prendem-me o olhar. "Esforço-me" para te arrancar um sorriso ou dois ou três. Para ouvir uma gargalhada tua, que nunca ouvi.
Não dás sorrisos fáceis. És observador. Posso fazer as caretas que quiser, contorcer-me e rebolar-me que tu não achas piada. E provavelmente tens razão!
Até agora descobri duas maneiras de te fazer rir. Uma é inspirar como se sugasse uma palhinha. Depois sopro para a tua carinha e pestanejas, contente. A outra é "dar-te beijinhos no ar" e ir aproximando a minha cara da tua barriga até te dar beijinhos na barriga ou no pescoço.
Estás na fase de pôr as mãos na boca e às vezes engasgas-te quando pões os dedos todos.
A tua adaptação à sopa e fruta não foram fáceis porque tu adoras as maminhas e o leitinho da mãe.
(O que eu acho um máximo e dou-te o maior apoio :p)
Gostas de adormecer sozinho, deitado na cama ou no chão. Preferes do que ao colo, ao contrário do mano.
Resmungas e eu aprovo mais uma vez. Adoro que assim sejas.

Meu querido sobrinho bebé!

Para não esquecer e para um dia te ler :)

Salvador, tens 4 anos agora. 
Já foste operado à garganta, depois de tentarmos reverter a situação das amígdalas com ajuda homeopática. Foste corajoso e tranquilo. És um exemplo para mim e um orgulho enorme.
Devido à cirurgia começaste a escola mais tarde do que os outros meninos. Mudaste de escola, do Colégio Lusitano para a Misericórdia e a tua adaptação está a ser calma.
Nos primeiros dias entraste na escola triste. Dizias ao avô que aquela escola era muito grande e muito confusa para ti.
No teu segundo dia de escola fiz-te uma surpresa e fui com o Gonçalo buscar-te. Passeamos pelo parque de Sintra e fomos lanchar à Piriquita. Estavas feliz feliz!! Todo tu sorrias! Pulavas. Davas a mão a um e a outro. E às vezes aos dois ao mesmo tempo. Que feliz tu és meu amor! :')

Ontem fizeste a tua primeira visita de estudo. Foram à Quinta Pedagógica. Como tens dito sempre que não sabes o nome dos teus amigos, conversei contigo ontem para ver se íamos mais fundo nos "detalhes". Perguntei-te com quem tinhas ido e vindo no autocarro. Se os lugares são 2 a 2 tinhas de ter vindo com alguém e com alguma proximidade. Na viagem para lá disseste que não sabias o nome do menino e na viagem para cá tinhas vindo com a Mafalda.
"E como é a Mafalda?" perguntei-te eu.
"É simpática"
"Hmm. E mais? Não há nada mais que a diferencie das outras meninas e meninos?"
"É menina. E tem 5 anos e vai fazer 6. Eu sou mais novo do que ela. Mas ela tem os pés mais pequenos do que os meus. E é mais pequena do que eu. Mas ela já tem 5 anos e eu só tenho 4."

E eu fico contente de te ouvir falar. De te ver crescer. De ver a tua adaptação às dificuldades que vão aparecendo e que são enormes quando se tem 4 anos de idade.

No outro dia dizias "Eu hoje fiz umas birrinhas porque não queria vir, mas é normal! Porque eu não conheço ninguém. É normal não é tia?"
"Claro! E se estiveres triste tens todo o direito. E se quiseres chorar choras! É completamente normal!"
"Tu também não conhecias ninguém quando foste para a escola?"
"Não. E sabes uma coisa? O Gonçalo vai começar a trabalhar num sítio novo e ele também não conhece ninguém." E explicar-te subtilmente que durante toda a vida há mudanças e há adaptações. E que a tua situação neste momento é a mesma que da mãe ou do Gonçalo porque estão num lugar onde não conhecem ninguém também.

Salvador, és uma criança maravilhosa! Um sobrinho tão desejado e tão amado. E eu quero tanto agradecer-te porque me fazeres ser tão melhor ao pé de ti, contigo, por ti.