31.12.13

Dois mil e treze

Dois mil e treze foi o meu ano da independência.
 
Comecei o ano a trabalhar na clínica. Comecei a ganhar dinheiro. Comecei a aprender a gerir o meu dinheiro. Abri uma empresa, ganhei uma sócia. Aprendi o que é ser empreendedora e descobri que sou. Aprendi a falar em público. Aprendi a mostrar quem sou eu. Aprendi a lutar por objectivos reais.
Andei pela primeira vez na Anaconda. Fui pela segunda vez a um parque temático. Conheci Mérida e Sevilha. Andei de avião e conheci Veneza. Fui ao Porto ver uma peça de teatro dos meus queridos amigos. Fui a Évora dar início ao curso de Doula. Dei o primeiro passo que me aproxima muito do meu sonho maior "ajudar mães a serem mães".
Estive presente em toda a mudança da casa. Limpeza, obras, montagem de cozinha, pintura da cabeceira e da cómoda. Forrar o sofá que tem mais de 30 anos. Deixei a casa dos meus pais para abraçar a nossa casa.
Voltei a aproximar-me da  Sara. As nossas divergências deixaram de existir.
Fui com a mana à primeira ecografia morfológica do Bernardo que aí vem. Falei outra vez para dentro da barriga da mana. Conheci o Rodrigo, o Afonso e o Tomás.
Enfrentei a doença do meu pai, apoiei-o e vi-o vencer.
Ajudei o avô Zé nos últimos dias de vida. Estive com o Gonçalo em todos os momentos.
Vi o Salvador aprender a falar e a expressar-se. Dois mil e treze foi o primeiro ano do Salvador na escola, assisti a esta mudança e ajudei-o a sentir-se melhor.
Vi uma separação e vi novos pares encontrarem sentido juntos.
Fiz o jantar dos 24 anos no restaurante Indiano. Descobri o meu gosto pela cozinha e alarguei o meu leque de receitas doceiras. Fiz pela primeira vez bolachas de aveia e até as ofereci pelo Natal. Aprendi a fazer cheesecake. Fui pela primeira vez à Lx Factory.
Devorei sushi com imenso prazer. Deixei de comer hamburgueres no Mcdonalds.
Vi muitos filmes no cinema.
Fui a Carvalho apoiar o meu querido Nuno numa das maiores perdas da sua vida.
Consegui tirar os pés do chão na invertida sobre a cabeça e estou muito perto de fazer a espargata.
Tive um dos melhores momentos da vida quando na feira alternativa de Sintra cantei Kirtana com o grupo coral do Yoga e vi aquelas borboletas dançarem sem parar à nossa frente. Ali senti todo o amor que nos circunda. Ali estive em completa sintonia comigo e com todo o Universo.
Em dois mil e treze estive ainda mais desperta para a medicina natural e assumi a minha vontade de não depender de medicamentos.
Este ano descobri o que é amar um animal. A Shisuka entrou na minha vida e ensinou-me tanto sobre o amor, sobre o respeito e a lealdade.
Com a Shisuka dei oportunidade ao Salvador de amar um animal e de respeitar todos os seres vivos.
Este ano levei a minha mãe a experimentar yoga e aumentamos as refeições vegetarianas lá de casa.
Foi o primeiro ano que assisti a uma festa de Natal do Salvador. Foi a primeira vez que comprei uma viagem para o Gonçalo e vimos o Homem Vitruviano de Da Vinci.
Este ano comecei o meu projecto do "Sinto aqui" onde registo através de fotografia o que está por cima de mim.
 
Este ano foi, tal como estava à espera, um ano de enorme crescimento. O ano em que percebi que sou independente e que tenho toda a força que preciso. E ainda mais. O ano em que fui determinada, em que escolhi um caminho a seguir. Um ano em que as afirmações foram mais do que as dúvidas. Um ano em que enfrentei medos e arrisquei.
 
O primeiro ano da Cardiorespira, os primeiros dias da nossa vida a dois. Obrigada 2013. Foste um constante desafio.

30.12.13

Serenidade

Parece que voltou.
Ele voltou à sua alegria e positividade. A casa voltou a ser a nossa inspiração, a estante ganhou vida. A música instalou-se ali. O escritório começou a aceitar os tecidos, os retalhos e a máquina da costura na secretária. As frases inspiradoras já esvoaçam na parede. A cama aquece-nos e deixa-nos com vontade de lá ficar. A cozinha já sentiu o cheiro dos nossos cozinhados. A Shisuka experimentou a rua pela primeira vez e portou-se muito bem. A família já lá foi lanchar e beber cházinho. O Salvador experimentou o puff e adorou aquele conforto. A primeira fotografia da serra às 8h da manhã foi tirada hoje. Amanhã acaba o ano. E tenho a certeza que 2014 vai ser o ano da família, da casa, da introspecção e o primeiro ano da minha vida em que vou realmente sentir-me realizada profissionalmente. Quando o meu propósito de vida passar a ser o meu trabalho também.
 
 

27.12.13

angústia. medo. tristeza. incompreensão. inércia. desapego. desmotivação.

e agora ia muito bem para a quinta do cozinheiro. e por lá ficava até não saber mais o que estas coisas significam.

andas assombrado e isso é muito mau.

17.12.13

Quem sou eu aos 24 anos?

24 anos depois, quem sou eu?
 
Sou uma menina na sua passagem a mulher. Ou sou mulher com toda a sua meninice preservada.
 
Diz-me o que gostas, dir-te-ei quem és:
Gosto de me deixar encantar, de ser livre para olhar, saltar, deixar o queixo cair de espanto. Gosto de bater palmas quando me sinto mesmo feliz. De fazer o meu sorriso muito aberto. Gosto de me conhecer e ser cada vez mais consciente de mim e de tudo à minha volta. Gosto de sorrir e de espalhar sorrisos. Gosto de miminhos e de mimar. Gosto de abraçar, mas não gosto de abraçar sempre. Gosto de fazer yoga e de sentir evolução em mim. Saber que das primeiras vezes que me sentei no chão me doíam as costas da tão boa postura e que agora me apetece sentar de pernas à chinês mesmo nas cadeiras. De olhar para a invertida e achar que não era capaz e um ano e meio depois conseguir levantar os pés. De saber que a prática do yoga é para mim o tubo de ensaio e que toda a vida é uma aula de yoga gigante. Gosto da minha consciência crescente em relação aos animais. A minha sensibilidade e respeito apurados. Gosto de fazer escolhas saudáveis e respeitadas. Gosto de agir de forma a minimizar a minha pega ambiental (e ainda há um grande caminho a percorrer). Gosto de ser cada vez mais holística e cada vez menos cientista. Gosto que o meu percurso de voluntariado me tenha levado cada vez mais à minha essência e à descoberta de quem sou (e descobri isto enquanto escrevia a candidatura à bolsa de doula). Gosto de começar o meu caminho de doula. Ainda tão novo e tão longe. Gosto de imaginar os próximos fins de semana em Évora na Quinta do Cozinheiro. Gosto da sensibilidade que sou. Gosto da facilidade com que crio empatia. Gosto de perceber as pessoas. Gosto de dar o benefício da dúvida. Gosto de ter cada vez menos preconceitos. Gosto de comida vegetariana e da forma como me sinto quando me alimento bem. Gosto de fazer bolos e sobremesas e entradas. Gosto de ser anfitriã. Gosto da ideia de começar a nossa família. Gosto muito, muito da nossa relação. Em que tudo é simples. Em que tudo é dito na altura e resolvido quando necessário. Em que ele me dá toda a segurança do mundo e em que nos pedimos em casamento todos os dias, porque a vontade que temos de nos ter um ao outro assim se manifesta. Gosto de ser a tia que diz ao seu pequenino que o ama. E que vibra mesmo com cada conquista e faz questão de lhe dizer. Que partilha com ele a sua vida e procura a partilha da vida dele. Que lhe dá espaço para experimentar, para errar e para evoluir. Gosto de ser intuitiva em relaçao à educação. Gosto de adorar a maternidade e de sentir tanta energia perto de uma mulher grávida.
Gosto de procurar remédios caserios e naturais em vez de correr à farmácia e aos anti-histamínicos. Gosto de conduzir e da liberdade que o meu carro me dá. Gosto do meu horário de trabalho em part-time. Gosto de ter tempo para costurar. Gosto muito de costurar. Gosto de ser amiga e de ajudar na clarificação de algumas ideias mais baralhadas. Gosto de ser assertiva e dizer o que acho. Gosto de ter poucas crenças limitantes e de estar a trabalhar no sentido de deixar de as ter. Gosto muito de ir ao Óasis e ser tão bem recebida. E de ir ao restaurante Indiano e que o senhor se lembre que me chamo "KATERINA". Gosto que a minha mãe conte comigo nos momentos mais frágeis. Gosto muito da minha mãe e da força inesgotável que tem. Gosto de não ter qualquer contacto em casa com depressão ou desmotivação. Gosto da volta que o meu pai deu à sua vida. Gosto muito da sua sensatez e justiça. E gosto muito de saber que tudo o que tenho dessa vertente (e tenho bastante) veio dele. Gosto de me comprometer e seguir com os meus compromissos. Gosto de ter opinião e gosto quando não a tenho de ficar muito caladinha a ouvir tudo para construir uma, fundamentada e estruturada. Gosto de olhar para o espelho e me sentir bonita.
Gosto de me emocionar com mensagens. Gosto de chorar por tudo e por nada. Porque gosto de sentir tanto. Gosto de me emocionar quando vejo o Salvador a correr para a abraçar a minha mãe ou quando diz ao meu pai "Gosto muito de ti avô". Gosto de ter bebés no colo. Gosto do canal de energia que sinto sair do meu coração e embrulhar aquele ser tão pequenino. Gosto de me apaixonar. Gosto de organizar jantares de Natal onde a "partilha" é a palavra de ordem. Onde cada um tem espaço para ser quem é e onde a individualidade de cada um é tão valorizada. Gosto de arrumar a casa nova. Gosto de olhar pela janela e ver o palácio da pena e o castelo dos mouros cheio de luz. Gosto de me sentar no cadeirão preto e ficar a contemplar o nosso espaço. Gosto da coragem que tenho de ligar a quem quer que seja para ter o que é preciso. Gosto de receber como prenda de anos uma jóia oferecida pela minha mãe porque gosto de olhar para o anel que trago no dedo e saber que foi a minha mãe que escolheu, a pensar em mim, para comemorar o vigésimo quarto que estamos juntas.
Gosto de ser espontânea. Gosto muito. E gosto de me deixar levar por esta visão exterior e ficar aqui horas a escrever sobre mim.

16.12.13

O balanço

Este é ainda um cantinho especial.
Ainda que seja raro o dia em que cá venho, ainda que escrever para uma plataforma online faça cada vez menos sentido (por um lado) e ainda que o ideal fosse ter um momento a sós, em algum sítio tranquilo e sereno onde só estivesse eu, um caderno e uma caneta, a verdade é que é mais simples e prático chegar aqui na altura que quiser e deixar registado o pensamento.
A verdade é que quando sinto curiosidade por me lembrar de mim há 3 meses ou 3 anos é aqui que venho. Leio o que escrevi na altura e toda a história do meu passado se estrutura e se me auto apresenta como se de um filme se tratasse.
 
Hoje, a algumas horas de festejar o meu vigésimo quarto aniversário, senti necessidade de vir cá e de me provocar a auto-análise anual.
As perguntas que me coloco? Quem era eu em Dezembro de 2012? Quem sou em Dezembro de 2013? O que fiz? O que mudou? Quem chegou e quem saiu? Conheço-me mais? Em quê? Valorizo o que vivi? Porquê? Imaginei que este último ano seria o que foi? Fiz o que me propus?
 
Vamos agora olhar para dentro e deixar fluir tudo quanto apeteça :)
 
Este ano foi um ano de enorme crescimento! Lembro-me de pensar que o ano de 2013 seria O ano. O ano da empresa, O ano da independência, O ano da casa nova. E foi!
Em Janeiro comecei a trabalhar e a gerir o meu dinheiro. A Cardiorespira nasceu nos dias 20 deste mês.
Em Fevereiro houve o cuidar do pai e do avô Zé.
Em Março começamos a reciclagem dos móveis.
Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro e Outubro passaram a voar. Entre reuniões, primeiras conquistas, apresentações da empresa, afirmação da vontade, determinação, fé e perseverança.
Toda a limpeza da casa, as escolhas, a espera. Fins de semana passados a idealizar. Alguma impaciência. Aprendizagens.
Novembro trouxe o curso de Doulas. Procurei-o. Encontrei-o e inscrevi-me. Foi a viagem surpresa a Veneza.
Dezembro começou em Évora com trabalho emocional. E o primeiro passo do meu sonho está dado.
Dezembro de 2013 e os 24 anos vão ter sempre a marca da nossa casa. O primeiro passo da nossa família. Da minha.
Sim, acredito que os 24 serão voltados para o nosso espaço, a nossa alimentação, os nossos hábitos cada vez mais saudáveis, voltados para a nossa dinâmica, a novidade, a nossa vida totalmente partilhada, o meu sonho realizado. A maternidade em volta de mim para depois, num outro ano, a maternidade ser vivida por mim.
 
Sou mesmo grata. Tão grata.

2.12.13

30 de Novembro e 1 de Dezembro 2013

O primeiro enorme passo para o meu sonho da vida.
Fui sem expectativas e tentava não pensar muito no que seria. Acordei cedo na manhã de Sábado, terminei a mala que estava quase pronta e saí.
Não preparei caderno, nem caneta, nem deixei que preconceitos chegassem e se instalassem. Fui só.
Grata pela companhia dos meus pais que me conduziram até lá.
A primeira pessoa a conhecer pareceu-me encantadora. Fizemos a viagem em silêncio, cada uma com a sua janela. Chegamos. A quinta, o sítio. Os gatos, o Óscar. O cheiro. A Luísa. Os abraços tímidos e o pequeno almoço.
Numa cozinha com mais de 100 anos, a mesa estava pronta para nós. O chá quentinho, o doce de framboesas, o sol cá fora, a cadeira de baloiço, a cama de rede, as ovelhas, as oliveiras, as azeitonas.
 
O chão da sala preparado para nos dar o suporte necessário, as mantas, os colchões, os puffs, as cores, as pernas à chinês, a roda e a partilha.
A partilha foi indescritível. Talvez o que me tenha marcado mais. Mulheres que se conheciam há menos de 3 horas e estavam ali, sem máscaras, a ir ao seu mais íntimo e deitar cá para fora. Um trabalho individual feito pela partilha de todas. Conhecer-me ainda mais. Cada vez mais. Ouvir, saber ouvir. Aceitar e admirar. Deixar só fluir. Deixar acontecer, não limitar nem criticar, nem julgar nem amedrontar.
Ali eramos só nós. NÒS.
 
O que aprendi nestes dois dias já está a mudar a minha vida. A forma como me preparei para isto foi-me dando indícios que tudo vai mudar em breve. Nada mais pode ser igual. De repente faz-se luz, adquire-se conhecimentos e sentimos ressoar cá dentro. Tudo faz todo o sentido.
Somos demasiado dependentes de máquinas, de médicos, de instrumentos, de probabilidades, do medo. Vivemos com medo.
E esta não é a forma que eu quero para mim. Quero ser livre. Quero tomar decisões conscientes e quero ajudar as pessoas a tomarem decisões conscientes.
 
Custa-me quando chego a casa e partilho o que aprendi, ainda que possa ser de uma forma mais ríspida em tom de provocação, e não vejo interesse. Aliás, vejo resistência e crenças limitantes.
 
Como a Luísa diz, eu estou certa do que quero. Era bom partilhar. E posso fazê-lo. Não tenho que esperar que compreendam e que façam uma grande festa. Eu estou a trabalhar em mim. Cada um tem o seu caminho e resta-me aceitar. Aceitar de verdade. E esta é a grande lição - aceitar os outros.
 
E até  Janeiro, há muito mais para aprender!