24 anos depois, quem sou eu?
Sou uma menina na sua passagem a mulher. Ou sou mulher com toda a sua meninice preservada.
Diz-me o que gostas, dir-te-ei quem és:
Gosto de me deixar encantar, de ser livre para olhar, saltar, deixar o queixo cair de espanto. Gosto de bater palmas quando me sinto mesmo feliz. De fazer o meu sorriso muito aberto. Gosto de me conhecer e ser cada vez mais consciente de mim e de tudo à minha volta. Gosto de sorrir e de espalhar sorrisos. Gosto de miminhos e de mimar. Gosto de abraçar, mas não gosto de abraçar sempre. Gosto de fazer yoga e de sentir evolução em mim. Saber que das primeiras vezes que me sentei no chão me doíam as costas da tão boa postura e que agora me apetece sentar de pernas à chinês mesmo nas cadeiras. De olhar para a invertida e achar que não era capaz e um ano e meio depois conseguir levantar os pés. De saber que a prática do yoga é para mim o tubo de ensaio e que toda a vida é uma aula de yoga gigante. Gosto da minha consciência crescente em relação aos animais. A minha sensibilidade e respeito apurados. Gosto de fazer escolhas saudáveis e respeitadas. Gosto de agir de forma a minimizar a minha pega ambiental (e ainda há um grande caminho a percorrer). Gosto de ser cada vez mais holística e cada vez menos cientista. Gosto que o meu percurso de voluntariado me tenha levado cada vez mais à minha essência e à descoberta de quem sou (e descobri isto enquanto escrevia a candidatura à bolsa de doula). Gosto de começar o meu caminho de doula. Ainda tão novo e tão longe. Gosto de imaginar os próximos fins de semana em Évora na Quinta do Cozinheiro. Gosto da sensibilidade que sou. Gosto da facilidade com que crio empatia. Gosto de perceber as pessoas. Gosto de dar o benefício da dúvida. Gosto de ter cada vez menos preconceitos. Gosto de comida vegetariana e da forma como me sinto quando me alimento bem. Gosto de fazer bolos e sobremesas e entradas. Gosto de ser anfitriã. Gosto da ideia de começar a nossa família. Gosto muito, muito da nossa relação. Em que tudo é simples. Em que tudo é dito na altura e resolvido quando necessário. Em que ele me dá toda a segurança do mundo e em que nos pedimos em casamento todos os dias, porque a vontade que temos de nos ter um ao outro assim se manifesta. Gosto de ser a tia que diz ao seu pequenino que o ama. E que vibra mesmo com cada conquista e faz questão de lhe dizer. Que partilha com ele a sua vida e procura a partilha da vida dele. Que lhe dá espaço para experimentar, para errar e para evoluir. Gosto de ser intuitiva em relaçao à educação. Gosto de adorar a maternidade e de sentir tanta energia perto de uma mulher grávida.
Gosto de procurar remédios caserios e naturais em vez de correr à farmácia e aos anti-histamínicos. Gosto de conduzir e da liberdade que o meu carro me dá. Gosto do meu horário de trabalho em part-time. Gosto de ter tempo para costurar. Gosto muito de costurar. Gosto de ser amiga e de ajudar na clarificação de algumas ideias mais baralhadas. Gosto de ser assertiva e dizer o que acho. Gosto de ter poucas crenças limitantes e de estar a trabalhar no sentido de deixar de as ter. Gosto muito de ir ao Óasis e ser tão bem recebida. E de ir ao restaurante Indiano e que o senhor se lembre que me chamo "KATERINA". Gosto que a minha mãe conte comigo nos momentos mais frágeis. Gosto muito da minha mãe e da força inesgotável que tem. Gosto de não ter qualquer contacto em casa com depressão ou desmotivação. Gosto da volta que o meu pai deu à sua vida. Gosto muito da sua sensatez e justiça. E gosto muito de saber que tudo o que tenho dessa vertente (e tenho bastante) veio dele. Gosto de me comprometer e seguir com os meus compromissos. Gosto de ter opinião e gosto quando não a tenho de ficar muito caladinha a ouvir tudo para construir uma, fundamentada e estruturada. Gosto de olhar para o espelho e me sentir bonita.
Gosto de me emocionar com mensagens. Gosto de chorar por tudo e por nada. Porque gosto de sentir tanto. Gosto de me emocionar quando vejo o Salvador a correr para a abraçar a minha mãe ou quando diz ao meu pai "Gosto muito de ti avô". Gosto de ter bebés no colo. Gosto do canal de energia que sinto sair do meu coração e embrulhar aquele ser tão pequenino. Gosto de me apaixonar. Gosto de organizar jantares de Natal onde a "partilha" é a palavra de ordem. Onde cada um tem espaço para ser quem é e onde a individualidade de cada um é tão valorizada. Gosto de arrumar a casa nova. Gosto de olhar pela janela e ver o palácio da pena e o castelo dos mouros cheio de luz. Gosto de me sentar no cadeirão preto e ficar a contemplar o nosso espaço. Gosto da coragem que tenho de ligar a quem quer que seja para ter o que é preciso. Gosto de receber como prenda de anos uma jóia oferecida pela minha mãe porque gosto de olhar para o anel que trago no dedo e saber que foi a minha mãe que escolheu, a pensar em mim, para comemorar o vigésimo quarto que estamos juntas.
Gosto de ser espontânea. Gosto muito. E gosto de me deixar levar por esta visão exterior e ficar aqui horas a escrever sobre mim.
Gosto de ser espontânea. Gosto muito. E gosto de me deixar levar por esta visão exterior e ficar aqui horas a escrever sobre mim.
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