23.3.10

agora

o que queria mesmo mesmo era ouvir um recital de poesia.

alguém que me leia um poema como deve ser?

3 comentários:

  1. Anónimo23.3.10

    Devia morrer-se de outra maneira.
    Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
    Ou em nuvens.
    Quando nos sentíssemos cansados,
    fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
    convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
    para o ritual do Grande Desfazer:
    "Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se
    em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio."
    E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros,
    olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida.
    Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio."Adeus! Adeus!"
    E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
    numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos
    …em seguida, os lábios…depois os cabelos…) a carne,
    em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo…
    tão leve…tão subtil…tão pólen…como aquela nuvem além (vêem?)
    - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…

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  2. Anónimo25.4.10

    Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
    Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
    e sem pés posso ainda ir para ti,
    e sem boca posso ainda invocar-te.
    Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
    com o coração como com a mão,
    tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
    e se me deitares fogo ao cérebro,
    hei-de continuar a trazer-te no sangue.



    Rainer Marie Rilke, in Livro das Horas

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