17.4.10

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco com o álcool da memória,
para que se transformem num licor de remorso;
outras, guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor do remorso;
e tiro da cabeça as outras palavras que lá ficaram,
até o ruído desaparecer, e só o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dizer.
Nuno Júdice

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