que hoje viria aqui escrever sobre ele,
não sabia que iria falar com um desconhecido por causa dele. Gostei.
Que experiência foi esta?
Vim o caminho todo a partilhar a leitura com um senhor. Não tinha mais de 40 anos. Tinha barba e inicialmente pôs óculos escuros para eu não ver que os seus olhos não saíam do meu livro. Foi inevitável perceber pela maneira como acompanhava a minha viragem de página e a orientação do texto.
Deixei o livro bem aberto e fiz questão de não tapar nem uma linha. Queria perguntar-lhe se podia virar, pedir desculpa para o caso de o estar a interromper. Sabia que lia mais depressa do que eu porque mexia a cabeça para a página ímpar antes de mim. Virar a página já não me incomodava.
No fim, olhou para mim e disse "Obrigado pela leitura." Desvalorizei o facto, sentindo que o tinha despertado para uma história única, quem sabe, dado a conhecer uma nova perspectiva.
Perguntou-me porque tinha parado algumas vezes e olhado para fora da janela. Respondi-lhe com a sinceridade que espelhava na cara a minha falta de concentração naqueles momentos que estavam a ser fortemente invadidos por pessoas sem discernimento mental para perceber que as vidas alheias não se comentam nem que venham em revistas cor de rosa, muito menos em voz alta acompanhada de risos insuportáveis. "Não me estava a conseguir concentrar" respondi, "preferi nem ler".
Disse-lhe para tirar o nome do autor e do livro, já que tinha achado interessante. Disse-me que já o tinha feito..."Daniel Sá Nogueira, sim sim, já sei".
Disse-me que ia sair na próxima paragem e que podia ser que nos voltassemos a ver.
A experiência foi única e muito consciente. Pode ser que o senhor realmente leia o livro, todo, e eu tenha conseguido assim despertar mais um macaco.
(Ai, o que eu gosto de conhecer pessoas assim. E a sensação com que fico depois...)

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