O medo de parar estava a deixar-me exausta. Quando achava que parava, a única coisa que fazia era focar-me nos meus pensamentos mais preocupantes. Deixava-os entrar em mim num ritmo frenético que não conseguia acompanhar, enchia-me de culpa, de medo, de preocupação e anulava todo o optimismo que me é característico. As dúvidas e a crença de que era incapaz assombravam-me todo o dia. Não conseguia olhar para uma pessoa sem me perguntar se aquela pessoa se sentiria ou não realizada profissionalmente. Tentava mudar a perspectiva, ver o lado bom, encarar tudo isto como uma fase, mas não estava a conseguir ser dona de mim.
Todos os dias, mal abria os olhos, determinava quais as tarefas a fazer até voltar a adormecer. Organizava mentalmente o meu dia, tentava chegar a todo o lado, ocupar-me, deixar de pensar e deixar de lado a frustração. Cada dia me cansava mais e a importância que dava ao dormir estava a superar-me. Estaria a ficar deprimida? Quando estava acompanhada, ficava melhor. Deixava de pensar. Era obrigada a focar-me noutras coisas e isso aparentemente ajudava. Quando me via sozinha era inevitável pôr-me em causa, puxar mais por mim, duvidar de que estaria a fazer tudo quanto podia.
Um desses dias acordei com vontade de ir correr para a praia. Acordei antes da mãe e quando me perguntou: "vamos andar?" só lhe respondi "eu vou correr para a praia, tu não sei". (Um tanto ríspida mas às vezes esta dependência irrita-me! E logo agora, que ando a lutar pela minha independência.)
Estava frio e o vento a entrar nos ouvidos não era propriamente agradável. Abstraí-me disso e foquei-me no mar, no cão que corria atrás das gaivotas e das gaivotas que voavam atrás dos peixes. Depois do vento na cara e da sensação de liberdade por correr 30 segundos (e parar porque não tenho preparação física para correr mais, ainda por cima na areia), a viagem de regresso prometia. A mãe veio com a história de me estar a isolar. Depois que não percebia que, sendo eu tão dinâmica na família e tão adepta do convívio familiar, não quisesse estar presente numa altura festiva. Enfim. O regresso a casa, no meio de choros e confrontos (positivos), foi o que me valeu. Depois daquela conversa fiquei desbloqueada. Organizei-me mentalmente e emocionalmente em 12 minutos. Redefini prioridades. De repente, o puzzle que estava caótico ficou perceptível. De repente, as coisas voltaram a fluir e eu a deixar-me fluir nelas. 2 + 1 = 3. Voltei a confiar. Voltei a confiar em mim. Agora, dou tempo ao tempo. Sigo a minha vontade. Assumo que mereço. Deixo-me respirar. Esbanjo sorrisos e sou tão feliz.
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