4.9.13

Avó Zé

A minha avó não é uma pessoa fácil. Identifico-me muito pouco com ela, com a sua maneira de ser, de viver, de ver e essencialmente de sentir.
Cada vez mais me tento abstrair destas nossas diferenças e tento, com imensa vontade, ver o melhor dela. Descobrir que mulher é aquela que eu só conhecia nos seus 67 anos. Quem foi ela durante toda a vida? O que a tornou tão fria, tão rígida, tão "insensível"?

Ontem fui visitá-la. Cheguei antes dos meus pais e isso deu-nos algum tempo a sós.
Olhei para cada detalhe do seu rosto. Com quase quase 91 anos esta minha avó tem as rugas preenchidas. Tem um olhar que é só dela e só agora as bochechas começam a descair.

Leu-me uma oração e quis filmar esse momento. Vou lembrar-me sempre dela com os seus livrinhos das missas e das liturgias por perto. Deixei-a ler para mim. A oração terminava "Jesus dai-me um coração como o teu". Apesar das nossas diferenças, todos os dias eu luto por isto. Por um coração como o dele. Por viver em amor, transmiti-lo a quem se cruza comigo, alimentá-lo e senti-lo em cada instante.

Descobri que a avó foi uma lutadora. Teve 6 filhos e ainda os tem vivos. A todos! Naquele tempo não era fácil e ela subia e descia a Serra só para os salvar.

Teve 3 dias em trabalho de parto da minha tia mais velha. Quando ela nasceu já espumava pela boca e foi o médico que com a própria boca lhe tirou a espuma. "Um santo." Disse-me ela.
Os mamilos cairam-lhe ao amamentar a primeira filha. Deixou de poder dar-lhe do seu leite e disse-me que a alimentava com leite condensado que custava 10 escudos na altura. Que o seu sogro lhe oferecia 5 latas de cada vez para que ela pudesse alimentar a sua filha. A minha tia ia crescendo e o leite deixava de ser suficiente. Compraram então uma cabra para lhe darem do seu leite como complemento ao leite condensado.
Que azar tiveram que a cabra estava doente e a minha tia, ainda bebé, gravemente doente ficou. "A língua não lhe cabia na boca!" Disse-me que a descer a Serra para a levar ao médico uma "tia" viu-a e disse-lhe "Ai Maria José, volta para casa com ela que ela não te chega viva lá abaixo."
A minha avó nem ligou, continuou no caminho confiante que a salvava.

Quanto à minha mãe, com 2 anos teve de mostrar que queria viver. Uma doença grave quase a levou. Mais uma vez a minha avó, Serra acima e Serra abaixo para a levar ao médico. Injecções e mais injecções, abcessos e infeccções. Quando a curou o médico levantou-a no colo e disse "Não fui eu que a salvei. Foi esta Santa" [No consultória havia uma Nossa Sra. da Conceição - e isso já explica o Conceição no nome da minha mãe].

Olhei para a minha avó como nunca antes tinha olhado. Guerreira, determinada. Nada a fazia parar. Mulher de fé, toda a vida foi. E agora já sei que aprendeu cedo.

Obrigada por teres lutado pela minha mãe avó. OBRIGADA!

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