Querida mãe,
Bem sei que não irás ler esta carta que te escrevo desta cidade que não é minha. O sol está quente aqui, não preciso de casacos como insistias que trouxesse. Estou naquele café que te falei a tentar matar saudades de não sei bem o quê. Sabes que da outra vez que cá vim abri um livro ao acaso e li a palavra "arquitecto"? Gosto tanto destes não acasos que sabemos bem. Hoje peguei no livro do lado e li "Ainda me lembro de como ficaste contente, mamã. Sei que andavas sempre a pensar como era bom para mim ter uma namorada."
A juntar à vontade de escrever, à vontade de te escrever e ao facto de ter lido a palavra "mamã" e ter sentido um calor no peito, decidi escrever-te e contar-te os últimos sentimentos que por mim têm passado. Tu já os sabes, conheces-me bem e sabes-me feliz.
Estou a ouvir a mesma música há mais de 15 minutos, estou deslumbrada. Lembra-me de te mostrar qual é, vais gostar. É em inglês, mas não te preocupes que esta percebo bem. É daquelas que tocam cá dentro, sabes? Deixa-me com um aperto bom ao nível do tórax que se expande um bocadinho até ao pescoço e à cabeça e por vezes pressiona o canal lacrimal. É uma sensação boa e má. Acho que são saudades.
Sabes que há bocado assustei-me? Fez-se um silêncio estranho e eu senti medo. Sei bem que nada acontece por acaso, mas esta ausência de palavra e de partilha já não me faz sentido.
Desculpa não te confiar mais coisas. A vontade não é pouca, podes acreditar. Ao mesmo tempo tenho medo que te preocupes e não quero. Estou demasiado feliz para preocupações. Entendes?
Falei com uma amiga antiga que me disse que há momentos tão intensos e genuínos que ficam para sempre. Acho que é isso.
Um beijo demorado como o que me deste ontem,
Minhoca
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