19.3.12


Era uma vez uma menina que não conhecia o tempo. Não sabia que a vida como a conhecia um dia ia acabar e desperdiçava tempo, pessoas, lugares, sol...Desperdiçava.
Um dia começou a pensar no que os mais velhos diziam e apercebeu-se que existia o tempo e que mais dia menos dia, as pessoas de quem gostava iam desaparecer e ela própria, um dia, iria fechar os olhos para não mais os abrir.
A partir desse dia, propôs-se a praticar um exercício diário - lembrar-se que aquele podia ser o último dia - para assim poder vivê-lo da melhor forma, da forma mais plena.
Então, todos os dias a menina agradecia por estar viva e todos os dias agradecia por ter os pais por perto, os amigos e quem lhe era mais querido.
Começou a sentir o sol na pele de outra forma, com outra intensidade. Começou a querer tornar cada dia único. Começou por mudar a hora do despertador e pô-lo diferente a cada dia. Se tinha de acordar às 08h00 a semana inteira, variava entre as 07h59; 07h56; 08h02...Começou a estar mais atenta às pessoas na rua, a ajudar quem mais precisava, a amar mais e a ser cada vez mais e mais feliz.
Passou a valorizar tanto o tempo que começou a ser muito selectiva com as actividades que fazia, com as pessoas com quem passava tempo. Evitava discutir gratuitamente, repensava a utilidade das coisas que dizia e evitava desperiçar o tempo com coisas supérfluas e inúteis.

Um dia apercebeu-se que 6 das 24 horas do seu dia eram gastas, literalmente. Mal gastas. E começou a pensar o que podia fazer para melhorar. Agarrava-se às coisas boas - aos sorrisos que recebia, aos agradecimentos e ao cuidado que prestava, mas começou a perceber que andava constantemente a contrariar-se.
Compactuava com faltas de respeito quando ela não as cometia. Era bombardeada com pessimismo quando ela era optimista. Começou a sentir-se mal por se deixar levar e andar a desperdiçar o seu tesouro com quem não merecia.
Começou cada vez a pensar mais e a procurar soluções para a sua vida, queria retomar o seu tempo da melhor maneira que sabia. E já sabia que não era assim. Cada vez pensava mais e usufruia menos. Ao sol - pensava. Á beira mar - pensava. Ao lado de quem mais amava - pensava.

Chegou o dia em que a menina voltou a não saber aproveitar as horas do seu dia porque os dias eram gastos a pensar demais.

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