13.3.12

Saí de casa com vontade de tornar o dia único. A verdade é que fugir da rotina está inteiramente ao meu alcance e assumir conscientemente que o dia 13 de Março de 2012 é único traz-me benefícios.
O caminho entre a minha casa e a estação de comboios é sempre o mesmo e isso não me incomoda nada. A espera pelo comboio foi diferente porque percebi a tempo que uma senhora idosa precisava de ajuda para descer as escadas. Ainda bem que senti o seu desconforto, voltei a trás, peguei no saco que trazia e pus-lhe o meu braço à frente para o usar como apoio. A sério que se não tivesse tido ajuda, aquelas escadas inofensivas para a maioria de nós teriam sido o perigo do dia para ela. A tristeza de ter deixado o marido internado no hospital, a aflição de subir tantos degraus quando a asma provoca aperto no peito e falta de ar, foi ligeiramente aliviada quando sentiu que durante aqueles 5 minutos tinha alguém com que falar. "Muito obrigada e bom dia!" - o meu dia já tinha tido aquela marca que desejava.
Entrei no comboio e o tom de voz aumentado de um senhor que se queixava dum rapaz que "não estava sentado na cadeira como gente" deixou-me inquieta. Decidi que não queria ouvir aquilo, levantei-me e mudei de carruagem. Quando era pequenina as minhas irmãs gozavam comigo porque assim que alguém gritava comigo ou perto de mim eu começava a chorar. Sempre fui sensível a tons de voz alterados. Detesto. Deixa-me insegura e desprotegida. Gostei quando o rapaz se levantou, deixou o senhor a falar sozinho e se mudou para a minha carruagem.
Quando cheguei ao Metro, a senhora que vende a revista Cais viu-me e eu senti imediatamente que tinha sido a escolhida. Ela mudou ligeiramente o seu percurso para se aproximar do meu e fez o seu papel. Quando lhe disse que não estava interessada, perguntou-me se pelo menos podia fazer uma pergunta. Parei, olhei para ela, sorri e disse que sim. Perguntou-me se não lhe podia dar dinheiro para a sopa. Lembrei-me logo que na mala trazia lanche a mais e que lhe podia perfeitamente oferecer as bolachas. "Muito obrigada e bom dia!"
Fui de sorriso na cara até ao final da plataforma e ouço um jornal cair no chão, mesmo ao meu lado. Inclino-me imediatamente para o apanhar, mas a mão do senhor chegou primeiro. Agradeceu-me ainda assim e eu senti-me contente pelo reflexo prestável que tive.
Assim sim. Estou vaidosa e com razão. Na minha agenda, o dia de hoje já tem marcas únicas e eu gosto dele assim.

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