17.7.13

Memória

Uma característica da pessoa que sou é a memória altamente alerta. Ele às vezes pasma-se quando digo, tin tin por tin tin uma expressão que ele usou há anos (2 no máximo, diga-se).
Lembro-me muito bem de caras. Lembro-me muito bem de nomes. Lembro-me muito bem de momentos. E hoje dei por mim a fazer uma espécie de zapping pela minha caixinha de memórias.
 
O N. numa altura muito frágil e especial dizia-me "É incrível como cada instante do agora está a ser gravado na minha memória para sempre." Eu nunca tinha visto as coisas desse prisma. Nunca me tinha dado conta que no próprio momento em que tudo acontece, já estão a ser escritas linhas e linhas de história, já estão a ser fotografadas caras, expressões, gravadas vozes e sons.
Ontem, por uma razão tão boa quanto abençoada sou por a ter vivido, senti que o meu cerébro estava a fotografar a cada fracção de segundo aquela paisagem. O meu corpo a registar cada sensação dos meus poros, da minha pele de cada vez que mergulhava naquela água. A minha retina memorizou para sempre aquela cor da água do mar.
Deixei-me flutuar na água e virada para aquela imensidão de rochas, de natureza, de vida, deixei-me levar pela contemplação. Pela gratidão de estar viva, de estar naquele preciso momento naquele sítio tão especial. Agradeci ao céu, ao mar, às rochas e às gaivotas.
Nenhum de nós tinha máquina fotográfica e por isso mesmo, fiz questão de-os relembrar que aquela visão era só nossa, guardada para sempre por cada um de nós.


Por causa disto, lembrei-me hoje de instantes que ficarão guardados para sempre, na pessoa que sou.
"Ai minha menina" - na última vez que vi aquele avô.
Ouvi-lo cantar há quase um ano atrás e ter o impulso de pegar no telemóvel e gravar aquela voz, a cantar aquela música. E eu sabia que era a última vez.
"Cima, baixo" - de todas as vezes que mergulhava com o meu pai. Quem me ensinou a estar nas ondas, a amar as ondas, a respeitá-las e a aproveitá-las tão bem.
Lembro-me de entrar em casa naquela Segunda feira e estar em ânsias de saber se ia ser tia ou não e só de respirar aquele ar de amor as lágrimas começarem-me a cair de felicidade. De tanta felicidade.
"Podemos ficar assim?" - a forma linda que ele arranjou para me pedir que ficassemos assim, felizes, juntos.

E mais chegam em rodopio à minha mente, ao meu coração. E o sorriso nos meus lábios rasga-se naturalmente.

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